Internacionalização da publicação científica em um mundo multipolar

Crédito: NMENKOV/WIKIMEDIA COMMONS

A publicação de artigos científicos deveria significar o compartilhamento do conhecimento gerado entre todos os cientistas que trabalham no mesmo tema. É assim que a ciência avança: pela troca, pelo diálogo, pela crítica. Por isso mesmo, a internacionalização dos periódicos publicados no Brasil é discussão relevante.

Entretanto, a busca pela internacionalização das revistas acadêmicas carrega uma série de contradições. Entre as limitações, está a barreira linguística enfrentada por pesquisadores de países não anglófonos. Além disso, autores de países centrais somente publicam no Brasil artigos feitos em parceria com autores nativos e quase nunca aceitam convites para participar de comitês editoriais ou avaliarem artigos.

O acesso aberto, com seu potencial para ampliar a internacionalização, é viabilizado por meio de taxas cobradas dos autores, agências de financiamento e instituições. Estima-se que cientistas tenham desembolsado mais de 1 bilhão de dólares em quatro anos para publicar em acesso aberto nesses veículos. Essa concentração e o alto custo dificultam a inserção de periódicos e pesquisadores de países com menos recursos e, consequentemente, a divulgação de resultados de pesquisas dessas regiões, ampliando a desigualdade. É sempre bom lembrar que apenas seis conglomerados controlam o mercado editorial científico, com margens de lucro espantosas e ética por vezes duvidosa.

O Portal de Periódicos da Capes, criado em 2000, disponibiliza os artigos de mais de 50.000 revistas científicas para cerca de 500 instituições brasileiras, tornando acessível o conhecimento produzido em diversos países. Recentemente, a Capes assinou acordos transformativos com editoras comerciais, garantindo, no mesmo contrato, o acesso aberto e o pagamento das taxas de publicação. O objetivo é facilitar a publicação nesses veículos, dando maior visibilidade à produção científica e tecnológica nacional. Além disso, a publicação nesses periódicos poderá beneficiar pesquisadores com acesso limitado a financiamento, particularmente aqueles cujos projetos não contam com recursos adequados para arcar com as taxas exigidas pelas revistas científicas. Entretanto, em 2025, o contrato da Capes com a editora Wiley custou US$ 8,3 milhões (dado obtido via Lei de Acesso à Informação, protocolo 23546.018379/2025-17). Não é pouco.

Os acordos transformativos combinam internacionalização receptiva, na qual se lê o que está sendo produzido no exterior, e exportadora, que busca divulgar a ciência produzida localmente. Ambos os processos são inerentes a um mundo unipolar, no qual o ‘Sul Global’ está, por definição, em posição subalterna.

Para a leitura na íntegra deste conteúdo, no Nexo Políticas Públicas, acesse aqui.

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Assinado por:

Marilia Sá Carvalho, coeditora-chefe de Cadernos de Saúde Pública.

Luciana Dias de Lima, coeditora-chefe de Cadernos de Saúde Pública.

Luciana Correia Alves, coeditora-chefe de Cadernos de Saúde Pública.

Esse ensaio é uma versão resumida do Editorial de maio de 2025 de Cadernos de Saúde Pública: Carvalho MS, Lima L, Alves L. ‘Internacionalização da publicação científica em um mundo multipolar’. Cadernos de Saúde Pública [Internet]. Maio/2025. Disponível aqui.

Coeditoras-chefe de CSP. Crédito: Cadernos de Saúde Pública