Suplemento de CSP analisa os desafios dos sistemas de saúde na América Latina pós-pandemia

A pandemia de COVID-19 expôs fragilidades históricas dos sistemas de saúde latino-americanos e reforçou a necessidade de pensar caminhos para além da resposta imediata às futuras emergências sanitárias. É a partir dessa perspectiva que Cadernos de Saúde Pública publica o suplemento Desafios dos Sistemas de Saúde na América Latina Pós-Pandemia, organizado por Cristiani Vieira Machado, Mónica Uribe-Gómez e Alex Alarcón Hein.

Entre Editorial, Perspectivas, Ensaio, Revisão e Artigos, a edição reúne onze manuscritos que analisam as trajetórias recentes dos sistemas de saúde da região, com estudos de caso sobre Brasil, Chile, Argentina, Colômbia e México, além de artigos transversais sobre o acesso a vacinas durante a pandemia e as desigualdades raciais e de gênero em saúde. Os temas abrangem financiamento, reformas sanitárias, relações público-privadas, atenção primária, gestão do trabalho em saúde e os caminhos para a universalização do direito à saúde na região.

No Editorial que apresenta o suplemento, os organizadores argumentam que os desafios atuais vão além da preparação para emergências e exigem enfrentar questões estruturais que condicionam o acesso e a qualidade da atenção à saúde. Entre elas estão a segmentação dos sistemas, a dependência tecnológica, a fragilidade do financiamento público e as barreiras que limitam a universalização do direito à saúde.

Esses temas são aprofundados no novo episódio de Entrevista com Autores, disponível no CSPCast e no YouTube da ENSP. Mediada por Hudson Pacífico da Silva, editor responsável pelo suplemento, a conversa recebe Cristiani Vieira Machado, pesquisadora da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (ENSP/Fiocruz) e uma das organizadoras da edição temática.

Durante a entrevista, Cristiani explica que a proposta do suplemento surgiu a partir de uma rede de pesquisadores latino-americanos e da necessidade de refletir sobre os aprendizados deixados pela pandemia alguns anos após sua fase mais crítica. “O número não enfoca a pandemia em si. Vários artigos abordam suas consequências, mas o foco está nos problemas estruturais dos sistemas de saúde da América Latina, que merecem enfrentamento por parte dos governos e da sociedade”, afirma.

Ao comentar os principais desafios compartilhados pelos países estudados, a pesquisadora destaca a persistência das desigualdades sociais, a fragmentação dos sistemas de proteção social e a forte presença do setor privado na organização da atenção à saúde. Para ela, a construção de sistemas mais universais e equitativos depende de políticas capazes de combinar financiamento adequado, fortalecimento da atenção primária, valorização dos profissionais de saúde e maior cooperação regional. “Os problemas de saúde a serem enfrentados são muito maiores do que as doenças infecciosas ou as emergências sanitárias. Os sistemas de saúde precisam estar preparados para responder de forma contínua e promover a saúde como direito de todas as pessoas”, afirma.

Questionada sobre as prioridades para os próximos anos, Cristiani defende ampliar o financiamento público em saúde – hoje abaixo de 4% do PIB na maior parte da região, distante do parâmetro de 6% recomendado pela OMS –, conter e regular o crescimento do setor privado, investir em ciência, tecnologia e integração regional, valorizar a formação e a carreira dos profissionais de saúde, e consolidar sistemas orientados pelo direito universal à saúde, com políticas de equidade voltadas a populações em situação de vulnerabilidade, como povos indígenas, população negra, comunidades ribeirinhas e quilombolas e pessoas com deficiência.

Confira a íntegra do episódio de Entrevista com Autores e acesse os artigos do suplemento no site de Cadernos de Saúde Pública.

Praça Cívica, Centro Brasileiro de Estudos da América Latina (CBEAL), Memorial da América Latina.
Foto: Fernando Wiktor