
Márcia Pinto, coautora do artigo “Carga da doença, social e econômica do tabagismo no Brasil e impacto do aumento de impostos para a economia e para a redução da morbimortalidade”, publicado em Cadernos de Saúde Pública, expande os achados da pesquisa nesta entrevista. O estudo, incluindo, de forma inédita, a carga econômica sobre os cuidadores informais, estimou que o tabagismo causou 174 mil mortes e custou R$ 153 bilhões ao Brasil em 2022. A pesquisadora discute também o papel do mercado ilegal de cigarros, os cenários de aumento de impostos e o que a Reforma Tributária em curso pode significar para a saúde pública e para as finanças do país.
O estudo utilizou um modelo de microsimulação probabilística de Markov. Como essa abordagem funciona na prática e por que foi escolhida para estimar a carga do tabagismo no Brasil?
É um modelo matemático que utiliza coortes hipotéticas, através das quais são simulados milhões de indivíduos, conforme o sexo e a idade. Na coorte hipotética de fumantes, por exemplo, simula-se o risco de cada indivíduo desenvolver a longo de ciclos de um ano, a partir dos 35 anos até o fim da vida, um tipo de câncer, um enfisema pulmonar, ter um episódio de infarto agudo do miocárdio e AVC.
E não são episódios isolados ao longo da vida, pois esse modelo permite estimar o risco de um indivíduo ter câncer de pulmão e bronquite crônica no mesmo ciclo. Esses riscos são obtidos na literatura e, por isso, há um trabalho prévio de busca de evidências de qualidade metodológica, que garante a robustez dos parâmetros incorporados na microsimulação.
Além disso, são estimadas a letalidade, a mortalidade e a incidência. Conhecendo-se o número de casos incidentes de cada doença tabaco-relacionada é possível estimar o custo total da assistência médica de todos os indivíduos. Neste caso, há um trabalho de estimar o custo do tratamento de cada doença.
Em razão das potencialidades da microsimulação, adotamos esta abordagem desde o primeiro estudo realizado, também publicado nos Cadernos de Saúde Pública, em 2015. Assim, tem sido possível estimar a carga do tabagismo sob a perspectiva da sociedade brasileira, ou seja, quantificando a mortalidade, a morbidade, além dos custos diretos e indiretos e, neste estudo, o custo da perda de produtividade dos cuidadores. Ou seja, conseguimos calcular, por exemplo, a quantidade de novos pacientes com AVC, infarto agudo do miocárdio e com os diferentes tipos de câncer que vão demandar serviços no SUS e na saúde suplementar anualmente. Além disso, este estudo, adicionou novas doenças, nas quais a associação com o tabagismo está bem estabelecida na literatura, como o diabetes mellitus tipo 2 e o câncer de fígado.
Os números são expressivos: 174 mil mortes e R$ 153 bilhões em custos anuais. O que mais surpreendeu o grupo de pesquisa ao longo do estudo?
Acho que o que mais surpreendeu foi justamente a carga do cuidador, que foi muito alta, mais de R$ 40 bilhões. Isso é marcante. O que acontece com esse cuidador? Ele tem que dedicar horas ao cuidado de uma pessoa e normalmente é um familiar que, ou sai do mercado de trabalho, ou reduz as suas horas trabalhadas. A renda familiar cai e há também dificuldade para retornar ao mercado de trabalho.
Então, estamos tratando da economia do cuidado que tem se mostrado eminentemente feminina e, por isso, o custo do cuidador não é apenas um número, mas envolve outras questões, como mecanismos de proteção financeira para essas pessoas, saúde mental e questões sociais.
Ao final do artigo, há uma breve menção ao impacto da indústria do tabaco no meio ambiente. Considerando as agendas de saúde planetária e de mudanças climáticas, qual seria a importância de aprofundar esse olhar em pesquisas futuras?
A questão ambiental tem sido bastante debatida e pesquisada nos últimos 30 anos. O Brasil é o primeiro exportador mundial de tabaco e um dos maiores produtores globais. Há estudos que já identificaram que a cultura do tabaco é responsável pela queima de madeira, além de ser intensiva no uso de agrotóxicos e de fertilizantes à base de nitrogênio que emitem nitratos que podem contaminar as águas superficiais e subterrâneas. Outro problema sério é a bituca de cigarro, uma questão grave nas áreas urbanas, praias e oceanos.
Assim, acredito que medir a carga econômica dessas questões ambientais é mais uma camada desse iceberg, que é a carga do tabagismo. Penso que devemos avaliar quais métodos e materiais de qualidade podem ser aplicados, assim, identificar suas repercussões para o meio ambiente tanto nas áreas produtoras quanto nas áreas urbanas.
O mercado ilegal de cigarros surge como uma variável central nos cenários projetados. Como esse mercado funciona no Brasil e por que ele representa um obstáculo tão relevante para as políticas de controle do tabaco?
O mercado ilegal de cigarros é um problema antigo e torna os produtos mais acessíveis em função de preços mais reduzidos. No caso do Brasil, há produtos contrabandeados e falsificados, bem como oriundos de descaminho, que ocorre quando a empresa não está em dia com suas obrigações tributárias.
Há sempre a alegação de que, se o preço do cigarro aumentar, o mercado ilegal irá crescer mais, porque as pessoas vão substituí-lo por um produto mais barato. Mas isso deve ser interpretado com cautela. O que posso dizer é que o mercado ilegal é, principalmente, uma questão de polícia e de fiscalização interna e das fronteiras nacionais.
Há estudos que demonstram uma redução pontual nos últimos anos, mas a oferta de cigarros ilegais é uma realidade no país, com um percentual de mercado que demanda muitas ações. Estes estudos atribuem a sua permanência à fragilidade no cumprimento da legislação, ao pouco comprometimento no controle da cadeia produtiva de cigarros, à própria cultura de compra de produtos ilegais e à ausência de cooperação com o Paraguai, país que é a principal fonte de cigarros ilícitos para o Brasil.
Nosso estudo demonstrou que, em cenários que incorporaram o mercado ilegal, em dez anos, os benefícios econômicos de um aumento de impostos se reduziriam substancialmente e a mortalidade e morbidade teriam uma queda menor no período. Portanto, a análise do mercado ilegal pressupõe identificar todas as dimensões – saúde, sociais, econômicas, soberania, dentre outras – para que se possa reduzir cada vez mais sua participação no mercado brasileiro.
O artigo foi submetido em janeiro de 2025 e abordava a Reforma Tributária em curso, que inclui os cigarros no grupo dos impostos seletivos. Na prática, como esse mecanismo pode contribuir para reduzir a carga econômica e de saúde do tabagismo no país?
Esses produtos terão a incidência do que chamamos de sin taxes [as taxas do pecado], já adotadas em vários países. No Brasil, será o imposto seletivo que está previsto para ser aplicado aos derivados do tabaco no ano que vem.
Recentemente, houve um aumento do preço mínimo do maço e de uma nova alíquota específica com vigência a partir de maio e de agosto, respectivamente. O governo brasileiro fez esse movimento importante e, espero que a partir do ano que vem, o imposto seletivo possa contribuir para uma política permanente de aumento de preços e que garanta tanto um aumento de arrecadação quanto de redução do consumo ao longo dos anos.
O estudo aponta que um aumento de 50% no preço dos cigarros poderia evitar cerca de 145 mil mortes em dez anos. Como traduzir esse dado em argumentos concretos para gestores públicos e formuladores de políticas de saúde?
O que o estudo indica primordialmente que haverá um menor número de óbitos e de adoecimento, possibilitando que as pessoas sejam mais produtivas e possam ter uma qualidade de vida melhor. Isso é um argumento que, na minha opinião, reflete o que se espera como sociedade.
O aumento de preços é a medida mais custo-efetiva para a redução do tabagismo. Então, além de reduzir a mortalidade e a morbidade, tem capacidade de aumentar a arrecadação tributária e, em tempos de ajuste fiscal, acredito que seja também um importante argumento para os gestores públicos avaliarem como a tríade aumento de impostos – aumento de preços – redução de consumo pode beneficiar a sociedade brasileira.
Título do artigo: Carga da doença, social e econômica do tabagismo no Brasil e impacto do aumento de impostos para a economia e para a redução da morbimortalidade
Autoria: Márcia Pinto, Ariel Bardach, Agustín Casarini, Federico Augustovski, Alfredo Palacios, Natalia Espinola, Marcia Gisele Santos, Kátia Marie Simões e Senna, Ana Clara de Moraes, Vera Luiza da Costa e Silva, Felipe Mendes, Cristiane Galhardo Ferreira Vianna, Ana Paula Leal Teixeira, Andres Pichon-Riviere
Entrevista: Márcia Pinto
Como citar o manuscrito: Pinto M, Bardach A, Casarini A, Augustovski F, Palacios A, Espinola N, Santos MG, Senna KMS, Moraes AC, Silva VLC, Mendes F, Vianna CGF, Teixeira APL, Pichon-Riviere A. Carga da doença, social e econômica do tabagismo no Brasil e impacto do aumento de impostos para a economia e para a redução da morbimortalidade. Cadernos de Saúde Pública 2026; 42(1):e00002425 doi: 10.1590/0102-311XPT002425