A emergência silenciosa de leptospirose exposta pelas enchentes no Rio Grande do Sul

Crédito: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Nesta entrevista, Roger Ferreira Gomes discute os principais resultados do estudo Enchentes no Rio Grande do Sul, Brasil, em 2024, e seus efeitos na epidemiologia da leptospirose, os desafios para vigilância e diagnóstico durante desastres e a necessidade de incorporar a leptospirose de forma mais efetiva às agendas de saúde pública e adaptação climática.

1. Os dados mostram um crescimento de 7,6 vezes no número de casos e quatro vezes mais óbitos em 2024 em relação a 2023. O que esses números revelam sobre a despreparação institucional para lidar com um evento de tal magnitude?

Os números revelam, acima de tudo, a enorme vulnerabilidade das populações e dos sistemas de saúde diante de eventos climáticos extremos dessa magnitude. O aumento de 7,6 vezes nos casos e de cinco vezes nos óbitos por leptospirose em comparação com 2023 demonstra como um evento climático extremo pode rapidamente se transformar em uma crise de saúde pública.

Não acredito que seja possível atribuir esse resultado exclusivamente a uma despreparação institucional, porque estamos falando de um desastre sem precedentes na história recente do Rio Grande do Sul. No entanto, os dados mostram que ainda existem desafios importantes na preparação para eventos dessa natureza, especialmente em áreas como saneamento, habitação, vigilância epidemiológica, comunicação de risco e capacidade de resposta dos serviços de saúde.

As enchentes de 2024 evidenciaram que a leptospirose não deveAs enchentes de 2024 evidenciaram que a leptospirose não deve ser encarada apenas como uma doença infecciosa, mas também como um marcador das desigualdades sociais e da vulnerabilidade ambiental. Os municípios mais afetados concentraram-se justamente nas áreas mais expostas às inundações, reforçando a importância de políticas públicas capazes de reduzir riscos antes que os desastres ocorram. ser encarada apenas como uma doença infecciosa, mas também como um marcador das desigualdades sociais e da vulnerabilidade ambiental. Os municípios mais afetados concentraram-se justamente nas áreas mais expostas às inundações, reforçando a importância de políticas públicas capazes de reduzir riscos antes que os desastres ocorram.

Mais do que identificar falhas específicas, os resultados do estudo oferecem uma oportunidade para refletirmos sobre a necessidade de fortalecer a resiliência dos sistemas de saúde, da infraestrutura urbana e dos mecanismos de proteção social, tornando-os mais preparados para responder a situações de grande impacto como a observada em 2024.

2. O artigo descreve a leptospirose como uma doença “invisível” para gestores e tomadores de decisão. Por que a leptospirose permanece negligenciada no Brasil, mesmo sendo endêmica e com letalidade superior à média global?

A leptospirose permanece negligenciada porque, apesar de seu importante impacto na morbimortalidade, afeta predominantemente populações em situação de vulnerabilidade social e costuma ocorrer em contextos de precariedade urbana, saneamento inadequado e exposição ocupacional ou ambiental a riscos. Historicamente, doenças associadas à pobreza tendem a receber menos atenção e investimento do que outros agravos com maior visibilidade social e política.

Além disso, a leptospirose apresenta desafios diagnósticos importantes. Os sintomas iniciais podem ser semelhantes aos de diversas outras doenças febris, o que dificulta o reconhecimento precoce dos casos e pode contribuir para subnotificação. Como consequência, muitas vezes a real magnitude do problema não é plenamente percebida pelos gestores e pela sociedade.

Outro aspecto importante é que a visibilidade da leptospirose tende a ser episódica, aumentando durante surtos e situações de emergência, mas diminuindo rapidamente após esses eventos. Apesar de permanecer endêmica em muitas regiões brasileiras, a doença frequentemente retorna à condição de relativa invisibilidade. Isso cria um ciclo em que a atenção aumenta durante as emergências, mas os investimentos estruturais em prevenção, saneamento, vigilância e educação em saúde nem sempre são mantidos a longo prazo.

Nosso estudo reforça que a leptospirose permanece em uma posição paradoxal: é uma doença conhecida há mais de um século, mas ainda recebe atenção científica, política e financeira inferior à sua relevância epidemiológica. Enquanto outras emergências sanitárias mobilizam rapidamente recursos e visibilidade, a leptospirose frequentemente permanece restrita aos serviços de vigilância e assistência, o que dificulta avanços sustentados em prevenção, diagnóstico e controle.

3. O manuscrito menciona que apenas 26,6% do esgoto gaúcho tem tratamento adequado e que as falhas em diques e galerias foram evidentes em 2024. Quais investimentos estruturais são prioritários para reduzir a vulnerabilidade do RS a eventos futuros?

As enchentes de 2024 evidenciaram que a vulnerabilidade do Rio Grande do Sul não depende apenas da intensidade dos eventos extremos, mas também da capacidade da infraestrutura urbana e dos serviços públicos de resistir a esses eventos e responder a eles. Por isso, os investimentos prioritários precisam ir além da reconstrução do que foi perdido.

Um dos principais desafios é a ampliação da cobertura de coleta e tratamento de esgoto, uma vez que a contaminação ambiental desempenha papel central na transmissão da leptospirose e de outras doenças associadas às enchentes. Da mesma forma, investimentos em drenagem urbana, manejo adequado das águas pluviais e modernização dos sistemas de proteção contra cheias, incluindo diques, casas de bombas e galerias de drenagem, são fundamentais para reduzir o impacto de futuros eventos.

Também é importante fortalecer os sistemas de monitoramento hidrometeorológico e de alerta precoce, permitindo que gestores e comunidades se preparem com maior antecedência. No campo da saúde, é essencial ampliar a capacidade de vigilância epidemiológica, diagnóstico e resposta rápida durante situações de emergência.

Investimentos em saneamento, drenagem urbana, proteção contra cheias, monitoramento hidrometeorológico e fortalecimento dos serviços de saúde não apenas reduzem os impactos de futuros desastres, mas também geram benefícios permanentes à qualidade de vida da população.

4. 76% dos casos ocorreram entre pessoas autodeclaradas brancas, o que reflete a composição demográfica do RS. O artigo alerta que isso não pode ser extrapolado para o contexto brasileiro. Quais cuidados são necessários ao usar esses dados para embasar políticas públicas nacionais?

O principal cuidado é compreender que os dados observados no Rio Grande do Sul refletem as características demográficas, sociais e territoriais do estado e não devem ser interpretados isoladamente ou generalizados automaticamente para todo o país. O fato de 76% dos casos terem ocorrido entre pessoas autodeclaradas brancas está diretamente relacionado à composição populacional gaúcha, que difere significativamente da observada em muitas outras regiões do Brasil.

Ao formular políticas públicas nacionais, é fundamental considerar as especificidades locais e regionais. Em epidemiologia, o risco de adoecimento não está associado à raça ou cor em si, mas às condições sociais, ambientais e de acesso à saúde que determinam diferentes níveis de exposição e vulnerabilidade. Esses fatores podem se distribuir de maneira distinta entre os grupos populacionais dependendo do contexto analisado.

Por isso, os dados do Rio Grande do Sul devem ser interpretados como uma fotografia de um evento ocorrido em uma população específica. Em outras regiões do Brasil, onde a composição demográfica e as desigualdades sociais apresentam características diferentes, o perfil dos grupos mais afetados pode ser distinto.

A principal lição para as políticas públicas não é focar em um grupo racial específico, mas identificar quais populações estão mais expostas e vulneráveis em cada território. Estratégias efetivas de prevenção e resposta a desastres precisam ser orientadas pelas realidades locais, reconhecendo que os determinantes sociais da saúde variam entre estados, municípios e comunidades.

5. Em 2023, apenas 12,8% dos casos foram confirmados por critério clínico-epidemiológico; em 2024, esse número saltou para 49,5%. O que essa mudança diz sobre as limitações diagnósticas em situações de desastre e quais riscos ela traz para a qualidade dos dados epidemiológicos?

O aumento expressivo das confirmações por critério clínico-epidemiológico em 2024 reflete os desafios enfrentados pelos sistemas de saúde e vigilância durante um desastre de grandes proporções. Em cenários como o observado no Rio Grande do Sul, há um aumento abrupto da demanda assistencial, dificuldades logísticas para coleta e processamento de amostras, interrupções de serviços e necessidade de tomada rápida de decisões clínicas e epidemiológicas. Além disso, os alertas sobre o risco de leptospirose associado ao contato com as águas da enchente podem ter aumentado o grau de suspeição clínica em casos compatíveis.

Nessas circunstâncias, o critério clínico-epidemiológico torna-se uma ferramenta fundamental para garantir a identificação oportuna dos casos e permitir respostas rápidas de vigilância e assistência. Em um contexto de ampla exposição da população às águas de enchente e aumento expressivo da circulação da doença, aguardar exclusivamente a confirmação laboratorial poderia atrasar medidas importantes de manejo clínico e saúde pública.

Além disso, durante as enchentes, diversos municípios enfrentaram severas dificuldades logísticas. Em algumas localidades, o isolamento decorrente da interrupção de rodovias e de outras vias de transporte dificultou ou até impossibilitou o envio de amostras aos laboratórios de referência. Nesses contextos, a combinação entre exposição epidemiológica claramente estabelecida, como o contato com águas de enchente, e um quadro clínico compatível com leptospirose representou uma alternativa essencial para a confirmação dos casos e para a manutenção da vigilância epidemiológica durante a emergência.

Por outro lado, essa mudança também evidencia limitações a serem consideradas na interpretação dos dados epidemiológicos. A maior dependência de critérios clínico-epidemiológicos pode aumentar a possibilidade de classificação incorreta de alguns casos, especialmente porque a leptospirose compartilha manifestações clínicas com diversas outras doenças febris. Isso pode afetar as estimativas de incidência, letalidade e distribuição dos casos.

Em situações de emergência, existe um equilíbrio delicado entre precisão diagnóstica e rapidez na resposta. A experiência de 2024 mostrou que os critérios clínico-epidemiológicos foram fundamentais para manter a vigilância ativa mesmo quando os fluxos laboratoriais habituais estavam comprometidos, permitindo que a magnitude do evento fosse monitorada em tempo real.

6. O manuscrito conclui pedindo que a leptospirose seja incorporada de forma mais explícita nas agendas nacionais e internacionais de saúde pública. Quais mudanças concretas em políticas, financiamento e vigilância seriam necessárias?

A incorporação mais explícita da leptospirose nas agendas de saúde pública exige, em primeiro lugar, o reconhecimento de que a doença representa um desafio que ultrapassa o setor saúde, envolvendo questões de saneamento, planejamento urbano, vigilância epidemiológica e preparação para eventos extremos. Eventos recentes demonstraram que a leptospirose pode deixar de ser um agravo localizado para assumir dimensões de emergência em saúde pública quando associada a desastres climáticos extremos.

No campo das políticas públicas, é fundamental fortalecer a integração entre os setores de saúde, saneamento, meio ambiente, defesa civil e planejamento urbano. A prevenção da leptospirose depende tanto de ações de vigilância e assistência quanto de investimentos estruturais capazes de reduzir a exposição da população a ambientes contaminados.

Em relação ao financiamento, é necessário ampliar os recursos destinados à vigilância de doenças relacionadas ao clima, à expansão do saneamento básico, ao fortalecimento da capacidade laboratorial e à preparação dos sistemas de saúde para responder rapidamente a situações de emergência. Também é importante incentivar a pesquisa científica sobre leptospirose, uma doença que, apesar de sua relevância epidemiológica, ainda recebe menos atenção e investimento do que outros agravos infecciosos.

No âmbito da vigilância, o fortalecimento dos sistemas de monitoramento e alerta precoce é essencial. A integração entre dados epidemiológicos, ambientais e meteorológicos pode permitir a identificação mais rápida de áreas de risco e a adoção antecipada de medidas de prevenção e controle. Além disso, é necessário investir na qualificação contínua das equipes de vigilância e assistência para o reconhecimento oportuno dos casos, especialmente em cenários de desastres.

A experiência das enchentes de 2024 sugere que a leptospirose deve ser incorporada de forma mais explícita às estratégias de adaptação climática. Nesse contexto, ela pode ser entendida como uma doença sentinela das mudanças climáticas, capaz de revelar como eventos extremos, desigualdades sociais e fragilidades estruturais se combinam para produzir impactos sobre a saúde da população.

Título do artigo: Enchentes no Rio Grande do Sul, Brasil, em 2024, e seus efeitos na epidemiologia da leptospirose

Autoria:  Bernardo Madeira Diefenthaeler, Alexia Antunes Deluca, Jéssica Manami Seki, Marco Antônio Tavares Duarte, Vinícius da Silva Gregory, Sofia Giacomet Borges, Roger Ferreira Gomes e Maria Helena Rigatto

Entrevista: Roger Ferreira Gomes

Como citar o manuscrito: Diefenthaeler BM, Deluca AA, Seki JM, Duarte MAT, Gregory VS, Borges SG, Gomes RF, Rigatto MH. Enchentes no Rio Grande do Sul, Brasil, em 2024, e seus efeitos na epidemiologia da leptospirose. Cadernos de Saúde Pública 2026; 42(1):e00111125 doi: 10.1590/0102-311XPT111125